quinta-feira, 14 de julho de 2011

Doulas, as amigas da hora do parto

Com suporte emocional e muita informação, trabalho dessas profissionais dá segurança às gestantes e favorece o trabalho médico
Publicado em 13/07/2011 | Dâmaris Thomazini


    O celular de Patrícia Bortolotto precisa estar sempre ligado: a qualquer momento ela pode receber a ligação de uma gestante em trabalho de parto. Mãe de três filhos, Patrícia contabiliza mais de 145 partos em que auxiliou o nascimento de bebês e de no­­vas mães. Mas ela não é obstetra e tampouco parteira: advogada, ela atua hoje mais como doula – ou “aquela que serve” na definição do termo. Sua função antes, durante e depois do parto é ser um ponto de referência, fonte de segurança e informação para as gestantes. “Faço três encontros individuais antes do parto, indico materiais de leitura e promovo encontros entre gestantes. Durante o parto, a doula fornece su­­porte físico e emocional à mulher”, esclarece Patrícia. O trabalho da doula, que traz be­­ne­­fícios reconhecidos pelo Minis­tério da Saúde, é definido como vocação, mas antes de exercê-la é preciso fazer um curso. O mais próximo é realizado em São Paulo. Se­­gundo Angelina Pita, coordenadora do curso fornecido pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (Gama), no Brasil existem cerca de 1,5 mil pessoas capacitadas para trabalhar co­­mo doulas, mas apenas de 10% a 20% está atuante. “A procura tem aumentado muito nos últimos meses, por conta da maior divulgação deste trabalho”, observa An­­gelina. A atividade das doulas vai na contramão de uma tendência em que a cesárea é a escolha de muitas mulheres. Dados da Pesquisa Nacio­nal de Demografia e Saúde (PNDS) mostram que no Brasil, 77% dos partos feitos na rede particular são cesáreas. Na Região Sul, 51,4% dos partos acontece desta forma. Grávida de seis meses de seu se­­gundo filho, a administradora Si­­mone Melo viveu todas as inseguranças da maternidade em sua primeira gestação e isso incluía os mitos que cercavam o parto. “No começo tudo parecia muito assustador, tanto a cesárea, quanto o parto normal; mas no fim da gravidez eu não conseguia imaginar o nascimento do meu bebê se não fosse de forma natural”, conta a mãe de Artur, de um ano e sete meses. A segurança para trazer o filho ao mundo sem qualquer intervenção de anestesia e sem a necessidade de pontos após o nascimento foi alcançada por Simone com o apoio de Pa­­trícia, que além de tirar as dúvidas de gestantes individualmente, abre a sua casa para encontros quinzenais gratuitos entre futuras mães e pais. “Lá eu tive a oportunidade de afas­­tar os medos com fatos. A gente assistia a alguns vídeos e as pessoas que já ti­­nham filhos contavam suas experiências sobre o que foi bom e o que não foi na hora do parto”, conta Si­­mo­­ne. “O mé­­­­dico acaba sendo técnico e a doula é um apoio mais emocional”, explica. Desconfiança X benefícios Nem todos os médicos são abertos à parceria de trabalho com uma doula. Para que preconceitos não atrapalhem esta relação é preciso que a gestante verifique se seu obstetra sabe o que faz uma doula e que ele aceite esta assistência prestada à mulher. O médico obstetra Carlos Miner é um incentivador do parto humanizado e há três anos trabalha com gestantes acompanhadas por doulas. Ele sente que as pacientes que têm esta assistência chegam mais preparadas e seguras para o grande momento. “Elas vão mais esclarecidas e informadas, assim a performance é melhor, diz Miner. Na hora do parto, a doula é a primeira a ser chamada e a última a ir embora seja em procedimentos realizados em maternidades ou em casa. Seu principal papel é orientar a mulher em relação ao que ela pode esperar da gravidez, do parto e do pós-parto. “Ela não substitui o trabalho médico e de enfermagem, nem a presença do marido. A doula é uma acompanhante profissional que conhece as reações, orienta e acalma a parturiente. Com ela, a evolução do parto é melhor e a satisfação da gestante maior”, diz. Encontre uma doula O site http://www.doulas.com.br/ mantém um cadastro de doulas por Estado. Lá é possível encontrar o telefone de contato destas profissionais.
    Atividade
    Veja o que fazem as doulas: Durante o trabalho de parto, a doula: • Orienta sobre a posição durante as contrações • Favorece a manutenção de um ambiente tranquilo e acolhedor, com silêncio e privacidade • Auxilia com técnicas respiratórias, massagens e banhos • Orienta a mulher sobre os métodos para o alívio da dor que podem ser utilizados, se necessários • Estimula a participação do marido ou companheiro em todo o processo • Apoia e orienta a mulher durante todo o período expulsivo, incluindo a possibilidade da liberdade de escolha quanto a posição a ser adotada Depois do nascimento do bebê, a doula: • Informa e orienta a mulher quanto à eliminação do cordão • Estimula a colocação do recém-nascido sobre o abdome materno, incentivando o início da sucção ao peito materno e favorecendo o vínculo afetivo mãe-filho • Orienta também quanto ao início e manutenção do aleitamento materno Serviço: Mais informações sobre como se tornar uma doula nos sites http://www.maternidadeativa.com.br/e http://www.doulas.org.br/. Fonte: Parto, aborto e puerpério – Assistência Humanizada à Mulher – 2001.
    Entrevista
    Angelina Pita, coordenadora do curso para formação de doulas realizado em São Paulo pelo Grupo de Apoio à Maternidade Ativa (GAMA), esclarece algumas questões sobre este trabalho: Só mulheres podem ser doulas? Não, mas tradicionalmente esse é um papel de mulheres. Já tivemos alguns homens fazendo o curso, normalmente eles são enfermeiros, fisioterapeutas e psicólogos procurando uma formação complementar para o trabalho com gestantes. O que é preciso para ser uma doula? Gostar de partos, admirar o processo de gerar e parir, acreditar que o parto é natural, fisiológico e ter vontade de ajudar as mulheres nesse momento. Sem dúvida é vocação. Algumas doulas chegam dizendo que desde crianças adoram o tema. Como surgiu a ideia de criação do curso para formar doulas? O curso existe desde 2002 e surgiu como uma forma de multiplicar as ideias de humanização do parto, de respeito e valorização da mulher e do bebê, que são, desde o início, o motivo principal do nosso trabalho. Ainda há preconceito quaanto ao trabalho delas? Sim, há hospitais que proíbem a entrada da doula por não ser uma profissão oficial e não ter um Conselho Profissional que a regule. Há médicos que não gostam da presença de mais uma pessoa no ambiente de parto. Porém, com a crescente divulgação do serviço cada vez mais profissionais têm visto os benefícios do trabalho da doula no parto para mãe, bebê e para o andamento dos processos do nascimento em geral: trabalho de parto, estado emocional pós-parto, desenvolvimento de vínculo e menos problemas com amamentação.

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