sexta-feira, 1 de abril de 2016

Meu relato de parto - 2

Eu tinha começado a escrever, no dia 25 de fevereiro, meu pré diário de parto. Minha intenção era recordar tudo que passei durante a gestação, para relembrar depois do parto...
O negócio é que minha pequena resolveu nascer  no dia seguinte, conforme vou relatar logo abaixo. Portanto, meu diário de pré parto, virou agora, meu pós diário de parto rsrs! Vou continua-lo mais pra frente, no mesmo post.

Meu relato de parto!

Desde o parto da minha primeira filha, tinha colocado no meu coração que meu ideal para meu próximo parto seria um parto domiciliar (meu primeiro relato de parto, você lê aqui!!). Ralei mais da metade da gestação para conseguir uma equipe que eu, mais que confiar, amasse de coração. E a equipe escolhida foi a equipe de Obstetrizes do Vale - Ópis - formada por obstetrizes formadas pela USP (meu amado curso que volto assim que puder) e 2 sage fames. Ter no meu parto colegas de curso foi muito mais que um privilégio; teve um significado totalmente único pra mim!

Facebook: https://www.facebook.com/Obstetrizesdovale/

Você pode acompanhar um pouco da minha luta pelo PD nesse POST.

Mas, vamos ao relato.

Minha DPP, pela DUM, era 08/03. Mas eu sempre disse para meu marido e uma ou duas pessoas mais próximas que sentia que minha filha adiantaria um pouco. Não prematuramente, mas não chegaria ao mês de março.

Completei 38 semanas no dia 23 de fevereiro. Eu continuava atendendo minhas clientes de estética facial normalmente. Já sentia bastante cansaço e muito peso nas pernas. As varizes doíam muito. Já tinha diminuído meu número de atendimentos, mas o calor judiava demais do meu organismo.
Eu sentia as contrações de treinamento - Braxton Hicks - há pelo menos uns 10 dias. As vezes duravam a manhã inteira, paravam a tarde; as vezes, a tarde ou a noite toda. Não doíam, mas eram regulares. Porém, sumiam num piscar de olhos. Eu que já sou uma pessoa sossegada em relação às BH, quando apareciam, quando passaram de 4 dias seguidos, desencanei...

Eu esperava o resultado de exame de Strepto com muita ansiedade (embora eu saiba que essa bactéria pode estar ativa ou inativa em questão de pouquíssimos dias antes do parto). O resultado sairia dia 25.

No dia 25, quinta feira, como sempre, acordei com as contrações de treino (do meu ponto de vista). A barriga endurecia, sem dor alguma... eu só não tive o cuidado de anotar os intervalos entre elas. Eram regulares, como sempre não doíam nada. Me faziam sentir um pouco de falta de ar, mas nada que me alertasse. Mas nesse dia, eu senti um desejo de fotografar minha barriga como ela estava ali, naquele momento (eu tinha ganho um ensaio gestante de um ex-colega de escola e nunca saiu o tal ensaio). Eu me sentia diferente; sentia que podia ser a última foto do jeito que eu queria tirar. E fiz algumas fotos. Gostei especialmente de duas. E o tempo todo me lembrava do refrão da música ANUNCIAÇÃO, do Alceu Valença: "Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais!". Eu sentia que ela estava chegando, porque eu percebia os sinais que ela e meu corpo me davam.

38 semanas e 2 dias em 25 de fevereiro


Fui para meu local de atendimento após a aula da minha filha, atendi uma cliente, bati papo com meus pais e pedi que meu pai me trouxesse pra casa. Chegando, liguei o computador e fui acessar o site do laboratório onde fiz meu exame. Dois grandes NEGATIVOS surgiram na tela. Eu não tinha a temida bactéria! Podia parir minha filha em casa, conforme eu quisera há tanto tempo (meu medo dela se deve ao fato de minha primeira filha ter sido internada com 5 dias de vida, por conta de uma infecção, descoberta mais tarde ser hospitalar, que consideraram ser a bactéria que EU teria passado pra ela; ou seja, carreguei uma culpa q não era minha por aproximadamente 6 anos).

Continuava a sentir as contrações e continuavam sem dor alguma. Fui ajeitar a cozinha, higienizei frutas e legumes, subi e desci escadas, recebi visita de duas amigas e conversamos até quase 23h. Tudo na santa paz...

Fui tomar banho, meu marido veio junto... acho q sentíamos que nossa segunda filhota chegaria logo. Ficamos de namorico até tarde, conversamos, rimos bastante e dormi feito uma pedra a noite toda. Me lembro de ter acordado no meio da noite com uma contração dolorida nas costas... mas dormi logo em seguida. Pensei ali "Que sono... se consigo dormir, é pq ta no começo ainda. Vou dormir até as contrações me acordarem pra não dormir mais!". Eu tava com tanto sono que nem pensei em olhar no relógio. Pela escuridão e silêncio que estava, acredito ter sido entre 2h e 3h30 da madrugada.
As 5h05 fui acordada por uma contração que, de fato, não me deixou dormir mais. As costas, a lombar e a barriga doíam bastante. Levantei, fui no banheiro, a dor continuava. Me lembrei do parto da minha primeira filha, cujas contrações começaram as 4h30 da manhã. Pensei: "Vai ser hoje... mas certamente, será a noite, conforme foi o primeiro parto...", eu sentia contrações fortes, mas completamente irregulares - eu já tinha um app contador de contrações. Elas duravam a média de 1m30s a 2m, mas o intervalo entre elas variava de 3m atá 8m, completamente fora de ritmo. Andei pelo apartamento. A cada contração, que vinham realmente bem fortes, eu agachava, respirava fundo... parecia q eu tinha "duas mentes" na mesma cabeça... e uma brigava com a outra:

Mente1: Estão fortes... melhor avisar as meninas da equipe. Se continuar agachando / pendurando assim, vc vai acelerar o expulsivo. Elas não vão chegar a tempo.
Mente2: DÓOOOIII, AI COMO DÓOOOOIII!! Não é possível que seja TP ativo... começou agora! MAS PQ DÓOOII DESSE JEITO? Vou avisar... não, não vou ainda, está cedo...

Voltei pro quarto. Eram qse 6h da manhã. Era sexta feira, dia 26. Ainda dia de aula da minha filha mais velha. Avisei meu marido q estava com contrações fortes. Me deitei; levantei imediatamente de novo. Não conseguia ficar deitada. "Você arruma ela pra escola, vou fazer o café!". Acho que foi isso que falei. Fui pra cozinha, coloquei água pra ferver. Entre iniciar o dia preparando o café, agachava, rebolava, me pendurava no balcão; respirava fundo. Acho que nessa hora fiz o primeiro aviso no grupo do whatsapp que estava com contrações realmente doloridas. Me orientaram a ir pro chuveiro. Fui. Fiquei uns 35 minutos. Não aguentava mais água. Saí. Avisei no grupo que as contrações não tinham parado. "Você ficou pelo menos 50 minutos?", "Não", respondi. "Então volta e fica lá pelo menos esse tempo". Avisei minha cunhada e pedi q ela viesse. Tentei tomar café, não conseguia comer. As contrações doloridas demais, me faziam não sentir vontade de comer. Sentei na mesa, em cima da bola pra tomar café com minha filha. Mas não virou. Ela queria conversar, eu não conseguia. Ela, na sua inocência de criança de 6 anos me falou: "Mamãe, por que você não quer falar comigo hoje?". Tadinha, não era o que eu queria que ela achasse. Abri um sorriso dolorido e falei baixinho: "Meu amor, me desculpe. É que talvez sua irmãzinha queira nascer hoje, ou amanhã. Aí eu fico com muita dor nas costas. É só por isso que a mamãe não está conseguindo conversar, estou com muita dor. Mas não se preocupe, isso vai passar, tá? Eu só quero ficar em silêncio um pouquinho só, tudo bem?".
Ela me deu um sorrisinho tímido, que é só dela. Me abraçou em volta do pescoço e me deu um beijo bem demorado. Aquilo foi um anestésico imediato. Eu sentia muita dor ainda, mas não me incomodavam de modo negativo. Eu acho que só precisava de um carinho, um abraço quente aquela hora. Eu sentia que ela também sabia da chegada da irmãzinha. Eram por volta das 7h da manhã.
Com a tentativa frustrada de tomar café, voltei pro chuveiro e lá fiquei. Meu marido foi levar nossa filha na escola. Antes dela sair, ela entrou no banheiro. Percebi o olhar preocupado dela. E repeti que estava tudo bem, que era apenas uma dorzinha nas costas e na barriga e que talvez a irmãzinha quisesse nascer. Ela deu o mesmo sorriso, me beijou e foi pra escola. Era dia do brinquedo e fiz questão de perguntar que brinquedo ela levava. Estava levando uma pelúcia da My Little Pony rsrs.

Fiquei no chuveiro... mas não aguentava mais água. Não fiquei os 50 minutos... fiquei uns 40. Meu marido voltou. Era pra ele ter ido trabalhar, mas pedi q ele ficasse. As contrações espaçaram, não ritimaram, mas continuavam vigorosas. Minha mente se dividia entre "isso tá indo rápido demais, tá muito estranho isso" e "puts, será que eu aguento isso até a noite?". Não conseguia mais escrever; pedi q meu marido avisasse no grupo que as contrações espaçaram, mas estavam fortes. Coloquei um TOP, estava extremamente calor (era no máximo 8h da manhã e o calorzão de fevereiro se fazia marcar). Eu continuava andando pelo apartamento e meu nervo ciático judiava da minha perna. Pedi q meu marido pressionasse apenas o nervo. Aliviava 90%. No grupo do parto, avisaram que uma das obstetrizes da equipe estava a caminho pra me avaliar. Dei graças a Deus! Meu marido avisou e resolvi deitar. Estava sentindo muita dor e sono, ao mesmo tempo.
Por volta das 8h30 ou 8h40, a obstetriz chegou. Nessa hora, eu só conseguia ficar sentada no vaso sanitário. Sentia uma dor gigantesca no osso sacro e na sínfese púbica. Não conseguia apoiar nada, sentando em lugar nenhum. Por isso o vaso me aliviava muito. Me lembro que ela chegou, me viu daquele jeito e depois de me cumprimentar, falou: "É... você ta em trabalho de parto mesmo!" rsrs. Não sei a cara que eu estava, mas eu imagino que tava com a cara mais nóia que o pessoal do Woodstock. Ela auscultou os batimentos cardíacos da bebê (estavam 160, eu acho), avisou que se trocaria e já me avaliaria. Imediatamente fui pro quarto e deitei novamente. Eram 9h da manhã. Logo ela veio e me avaliou: 5 cm. A P.A estava em ordem: 11/8

Foto: Taina Lessa (arquivo pessoal)


Ao mesmo tempo, as duas "mentes" que eu tinha na cabeça se manifestaram. Ao mesmo tempo que fiquei mega aliviada (puxa, que ótimo! Estou mesmo em TP. Minha filha vai mesmo nascer! E vai nascer em casa!!), entrei em pânico por dentro (5 cm? Meu Deus, ainda tem metade pra dilatar e mais o expulsivo. Ai caramba, será que eu aguento? Já está a mil esse TP...).
Fiquei na cama por mais algum tempinho e, sequer notei a chegada da minha cunhada. Ela chegou em silencio e fez algumas fotos. Eu apenas ouvia o som da câmera. E continuava deitada. Pedi pro meu marido avisar no grupo que, quem quisesse, podia já vir pro apartamento. Nessa hora, mesmo que demorasse, eu não queria mais ficar um momento sequer sozinha. Queria todas perto de mim.
Em dado momento, eu não aguentava mais as contrações. Sentia muita dor nas costas. Eu vocalizava e me levantava quando sentia que vinha a contração. O tempo todo minha cabeça pensante ficava: "Meu Deus, os vizinhos vão achar que eu to com problemas aqui. Não posso gritar, não posso me exaltar, vou horrorizar o pessoal..."; ao mesmo tempo que minha cabeça ocitocinada ficava: "Ahhh, dane-se!! Tá doendo! Eu vou gritáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar!! ahhhhh que dor! Que saco!".

Nessa hora eu olhei em volta e vi a bola de pilates que tenho em casa. Imediatamente pensei: "Bola, é isso! Vou pra ela rápido antes que venha outra contração". Eu não sei de qto em qto tempo estava a contração. Pra mim, parecia que o intervalo estava menos de 2 minutos e que durava apenas alguns segundos, mas segundos imensos (se é que isso existe). Pedi uma toalha em cima da bola, peguei os travesseiros que estavam na cama e me apoiei neles. Vinha uma contração, eu gritava com uma toalha na boca, pois a mesma cabeça pensante dizia q eu não podia incomodar a vizinhança. Duas contrações depois eu nem lembrava mais da toalha... gritava sem nada mesmo!
Eu chamei a obstetriz e, por dentro, não me conformava que eu tinha escolhido aquilo. Vinha a contração e eu só gritava "SOCOOOOORROOOO!"; eu dizia que dóia muito e a obstetriz, linda, sempre me incentivava. Dizia q sabia q doía; eu dizia q não ia aguentar e ela dizia q eu aguentava sim, que confiava em mim e que eu já tinha passado por aquilo uma vez e conseguiria novamente! Vinha outra contração e eu gritava, chorava. Por dentro eu pensava "PQP! PQ Q EU FUI ESCOLHER UM PD? C*****, QUEM ESCOLHE ISSO SÓ PODE ESTAR QUERENDO ZUAR COM A CARA DA MULHERADA, QUE ÓDIO!". Nem sei que cabeça pensava isso. Só sei que a que usava da razão nessa hora só pode ter sido esganada pela da partolândia, não vejo outra alternativa pra ela ter ficado em silêncio. A vizinha do apto de cima interfonou pro nosso apto e ofereceu ajuda (ela não sabia que eu tinha escolhido um PD). Meu marido atendeu e falou que estava tudo bem, que tinha uma equipe me acompanhando (soube dps pela vizinha do apto de baixo q ela chegou a ligar pra esse apto de baixo e disse q achava q eu 'tava tendo nenem e se ela sabia se eu tava sozinha ou não, se era melhor ligar pro resgate. Ainda bem q ela ligou aqui antes pra perguntar, senão ia ter o SAMU entrando e invadindo meu apto durante o parto rsrs).

Eu apertava a mão da obstetriz e ela não me soltava. Assim que a contração passava, eu deitava nos travesseiros. A contração vinha, eu gritava, chorava, xingava e apertava a obstetriz. Minha cunhada apertava minhas costas e minha perna, no nervo ciático. Eu soube depois que, nessa hora, meu marido tinha saído do apto pra ir atras de um transformador para o aquecedor (pena...).

Do nada, uma contração que iniciou dolorida, parou de doer e me deu uma vontade imeeeeeeensa de fazer força. A sensação era que eu estava com um (desculpe o palavreado) "cocô imenso" preso no intestino. Minha cabeça racional decidiu ressuscitar nessa hora e pensava: "Não force, deixe o útero empurrar; se sentir vontade e não der pra controlar, faça força devagar, senão vai lacerar". Minha cabeça louca pensava: "VAI SE F****!! SAI LOGO DAÍ, SACO!".

Eu arfava, forçava e minhas duas mentes brigando dentro da minha cabeça. Meu coração só conseguia sentir satisfação e medo ao mesmo tempo. Satisfação pelo parto e pq minha filha estaria logo comigo e medo pela laceração que eu sabia e tinha certeza que aconteceria e medo de saber se tudo estava bem com ela. Eu não tinha me dado conta mas, fora a obstetriz, ninguém mais da equipe estava lá. Mas eu sequer tinha me dado conta disso. Uma das minhas mentes se lembrou por frações de segundo de perguntar pelo meu marido, mas foi sufocada por outra contração. Eu só sei que, vinha a contração, eu forçava. Minhas duas cabeças continuavam os "mantras" opostos: "Não force, cuidado, vai lacerar... respira sem forçar!" e a outra: "AAAAAAAAAAHHHHHHHH, C*******, NASCE LOGO E AÍ A GENTE VÊ O QUE FAZ COM A LACERAÇÃO, SACO!!". Eu gritava, chorava, xingava e urrava. Isso aconteceu umas 5, 6 ou 7 vezes, não tenho nem ideia. Só sei que em algum momento, eu não conseguia deitar de frente, doía muito debaixo da barriga. Arqueei o corpo pra trás.  Nesse momento a obstetriz só me falou: "Ela está aí!".

Minha cabeça deu uma parada no tempo só pra pensar... a cabeça pensante duvidou: "Isso é impossível! Eu estava com 5cm há pouco tempo... como assim ela já está aqui?"; a cabeça louca não pensou nada... sequer deu palpite. Nessa hora a obstetriz perguntou: "Você quer sentir a cabecinha dela?"

Meu Deus... eu meio que imaginei eu ouvindo essa pergunta desde um dos primeiros relatos de parto que li, onde uma EO perguntava a mesma coisa pra mulher. Mas eu jamais imaginei que alguém faria essa pergunta pra mim, pq jamais imaginaria conseguir um PD (por N motivos)... mas ela o fez!! Meu coração saltou de emoção e me toquei... mas... cadê? Perguntei, além do mentalmente, perguntei em alta voz tb. Ela olhou de novo e falou: "Ela tava aí agora mesmo, eu vi, tenho certeza..." e nisso, veio uma outra contração. Era o que deveria ter acontecido, a "ida e volta" para massagear o períneo. Ela apareceu de novo e me toquei. A obstetriz me falou que eu sentiria a bolsa íntegra. O líquido estava clarinho (meu coração saltou de alegria de novo) e eu já estava no expulsivo. Aí a cabeça pensante duvidou de novo: "Expulsivo? Como assim? E não tem ninguém aqui? Como assim? Pq só tem uma obstetriz aqui? Por que não deu tempo? O que aconteceu? Ai meu Deus, lá vem mais uma..." e outra contração começou. A obstetriz tinha ido pro outro quarto ligar pra a colega (outra obstetriz) e avisar que eu estava no expulsivo. Ela estava no portão, mas não tinha ninguém pra abrir o portão pra ela. Gritei por ela e ela voltou. Ela perguntou se eu queria deitar na cama. Eu não conseguia falar, só empurrar. Minhas duas mentes continuavam brigando na minha cabeça, uma pra empurrar e outra pra não empurrar, pra evitar a laceração. Eu levantei da bola e segurei meu períneo. Nessa hora, senti a cabeça dela começando a sair e junto, a bolsa estourou. A sensação da água quente, saída de dentro de mim e passando pela minha mão é indescritível. Senti junto o topo da cabeça dela quente do mesmo jeito e o vérnix viscoso no cabelo dela. Meu coração acelerou! Meu Deus, ela estava ali, há poucos momentos de mim!! Nessa hora minha cabeça pensante pensou mais forte: "Meu Deus, tão rápido assim foi esse expulsivo... puts, vai lacerar e vai lacerar feio... o que eu faço agora? Não quero que lacere, isso vai demorar pra sarar, e agora?". Minha cabeça pensante preocupada com isso e minha outra mente na maior viagem alucinógena e psicodélica que eu jamais imaginei passar, só pensava: "Que loco isso, ela tá aqui... olha que quente, olha que demais, que vibe!! Tem dois momentos aqui, um dentro, um fora!! PQP, Q LOCO, Q BARATO!!".

Ao que a obstetriz repetiu a pergunta, se eu queria deitar na cama, veio outra contração. Tentei me levantar pra, pelo menos, sentar na cama, não consegui. Ao que levantei, ajoelhei no chão com o joelho esquerdo e levantei o joelho direito. Minha mão esquerda foi pra trás e minha mão direita pela frente, imediatamente tocaram a cabecinha dela, que já escorregava pra fora de mim inteirinha. Ouvi o som de quando cai água no chão.  Não sei se eu a segurei sozinha, se a obstetriz me ajudou... não vi nada, só senti. Eu senti o corpinho dela escorregar inteirinho pras minhas mãos, lisa, quente e chorou, assim que a peguei. Como era quente, como era lisa!! E eu a trouxe pro meu colo... a abracei!! Era minha, toda minha, minha pequena Giovana!! Que quentura deliciosa e eu podia senti-la com meu corpo. Eu estava ainda na mesma posição e a abraçava, lisa e quente!! "Minha, é minha, só minha!" uma das minhas mentes pensava! Eu me sentia extasiada, como se tivesse tido o maior prazer da minha vida!! Como era delicioso aquele momento... e eu queria que durasse para sempre!!

Foram poucos segundos (acredito eu), que fiquei assim... mas foram os mais incríveis que ali fiquei!! Não sei como, mas me deitei... não sei quando tb, mas sei que ali, naquele momento, entraram meu marido, a Ana (a outra obstetriz) e minha cunhada (que tinha ido tentar abrir o portão pra Ana). Me ajudaram a me deitar. Tiraram meu top e nos colocaram em contato pele a pele. Ela era rosinha, linda, fofinha e muito quentinha. Puseram muitas toalhas passadas e quentes sobre a gente. Ela foi sendo mantida aquecida... e que cheirinho delicioso, cheiro de alguma coisa que eu não sei descrever, mas é algo que eu jamais vou esquecer! Eu a sentia, ela estava bem, se mexia, estava no meu colo, onde ninguém e nada poderiam fazer mal a ela. Ninguém ia espeta-la, esfrega-la ou leva-la pra longe de mim. Ninguém ia toca-la com bactérias modificadas de um hospital, só com as da minha família mesmo! Ninguém ia tirar de mim de dar a ela a melhor recepção que um novo ser humano merece! E essa equipe linda, maravilhosa, perfeita, de obstetrizes mais que humanas, nos concedeu isso!


Assim que nasceu - foto de celular (arquivo pessoal)


Meu marido veio perto da gente... me beijou, ficou perto, me acolheu! Estava orgulhoso da gente, eu sentia e tão feliz qto eu. Em meio a tudo isso, ouvi a obstetriz falando: "Hora do nascimento: 10h43."


Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


COMO É QUE É??
Não pude acreditar, novamente... menos de duas horas depois do único toque feito, onde eu estava ainda com 5cm, minha filha estava no meu colo. Foi um parto mega ultra rápido, cuspido, quiabo, a jato ou qqr outro adjetivo que você queira dar. Justamente por isso, assim que escutei o horário, a primeira coisa que pensei: "Puts, meu períneo foi pro beleléu!"

Ainda fiquei um tempo com minha bebéia no colo... e nisso chegaram a doula e a fotógrafa, que não acreditaram que minha pequena já estava no meu colo. A cara de espanto das duas tb não vai sair da minha mente rsrs!
A placenta nasceu logo depois. E minha filha ainda estava conectada ao cordão, que já tinha parado de pulsar. Pedi pra sentir o cordão... era firme, mas já estava frio, branquinho. Meu marido clampeou o cordão e a obstetriz o cortou. Pronto! Não estávamos mais fisicamente ligadas. Pedi para ver a placenta... e me surpreendi muito! Era menor que a placenta da minha primeira filha, mas tão vermelha quanto! Agradeci mentalmente por ter cuidado da minha pequena, enquanto eu mesma não podia cuida-la diretamente.

Foto: Taina Lessa (arquivo pessoal)


As obstetrizes pediram pra alguém ficar com minha filha para avaliarem meu períneo. Entreguei pra Lidiane, a doula, e ambas foram então, avaliar os estragos. Laceração de segundo grau, de gravidade média. A velocidade do nascimento causou um estrago considerável, mas ainda sim, do meu ponto de vista, menos desastroso do que uma episiotomia.
Pesaram e mediram minha filhota: 48,5cm e 2,850kg. Ela voltou pro meu colo, mamou um pouco e novamente, foi pro colo das meninas, para que as obstetrizes iniciassem os cuidados e suturas necessárias. Tomei anestesia local e foi feita a sutura. Passado o procedimento, Ana me ajudou a tomar banho. Meu marido e minha cunhada cuidaram da limpeza e do almoço. Minha irmã se prontificou a pegar minha filha mais velha na escola. Todos cuidaram uns dos outros e fiquei tranquila. Voltei p cama e fiquei com minha filha. Almocei e curti muito a companhia de todos.


Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Aos poucos, cada uma foi se despedindo e indo pra casa. Um pouco depois, minha família veio conhecer a nova integrante. Minha filha entrou primeiro no quarto... e jamais, nem mesmo quando eu ficar velhinha, vou esquecer o rosto de surpresa dela, ao nos encontrar no quarto... pois ao sair pra escola, a irmãzinha ainda estava na barriga da mamãe; quando voltou, estava no braço!

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia
Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Eu jamais vou poder retribuir o que essa equipe fez por mim!! Nem em mil anos, poderia fazer o bem q me fizeram!! Talvez, gratidão eterna seja o mínimo do mínimo que eu poderia oferecer a elas!

Quero agradecer primeiramente a Deus que, durante toda a gestação, ouviu meus medos, viu minhas (não poucas) lágrimas, de cada luta não vencida e das vencidas; das dificuldades e das vitórias, alcançadas até mesmo poucas horas antes do parto.

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço ao meu marido, Sigmar e minha filha Verônica Maria, pelo carinho, apoio e principalmente, por embarcarem comigo nessa aventura. Eu não sou nada sem vocês!!

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço imensamente e eternamente, ao coletivo Ópis - obstetrizes do Vale, por estarem comigo, por serem minhas companheiras nesse momento tão único, por terem topado comigo, mesmo com as inúmeras limitações, embarcar nessa "loucura". Vocês são parte da minha história e da minha família, para sempre.

 Ópis - obstetrizes do Vale


Gratidão imensa à doula Lidiane, que saiu de Taubaté, correu pra deixar seu pequeno filho em outra cidade e veio pra Jacareí e foi uma doula presente a todo tempo, mesmo não dando tempo do parto em si. Esteve comigo de forma plena, divertida e carinhosa.
Contato: https://www.facebook.com/lidianearf

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço apaixonadamente a fotógrafa Juliana Rosa, pelo registro próprio do pós parto e pelas edições nas fotos da minha cunhada. Graças ao seu trabalho lindo, delicado, sensível e de inquestionável talento, terei para sempre o registro de um momento incrível da minha vida! Gratidão!
Contato: https://www.facebook.com/prosaefotografia/?fref=ts


Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço a minha cunhada Taina, que em seu silêncio mariano, se fez presente com seu apoio e dedicação, cuidando de mim no parto e depois, do meu espacinho rsrs! Deus te recompense infinitamente.

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

E por fim, meus pais que me ensinaram a ser do jeito que sou, teimosa, que não engole sapo e busca o que quer, mesmo que custe alguns chingos, lágrimas, feridas e muito cansaço, mas que mesmo assim, eu alcance o meu sonho! Obrigada Mãe Carminha e Pai Daniel! AMO VOCÊS!! Graças ao que me ensinaram a ser, tive força pra lutar por um nascimento digno para minha filha. E as minhas irmãs que são minhas companheiras pra toda hora! Graças ao que vcs são pra mim, que resolvi presentear a Verônica com o presente mais lindo, legal e amoroso que tem nesse mundo: uma irmãzinha <3 - AMO VCS!!

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Á minha pequena Giovana Paula, futuramente, ao ler esse relato, saiba que, mesmo que a gente tenha passado por muita coisa na gestação, principalmente de ordem financeira (sempre no vermelho), saiba que lutei muito, muito, muito, para que você fosse bem recebida no meio da nossa família. Fiz o mesmo pela sua irmã e não seria diferente pra você! Vocês são a luz dos meus olhos e faria tudo de novo! Ainda há muito que melhorar, mas tudo que eu pude fazer, eu fiz! Saiba que meu amor permanecerá em cada gesto que eu fizer, sem diminuir jamais!

Amo vocês!!

Com amor,

Arlene
Mãe, esposa, doula, futura obstetriz e apaixonada pela vida!

#avidaéforte
Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


*Espero que tenham gostado!

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