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terça-feira, 27 de março de 2018

Relato dos meus partos - Por Taina Lessa


Esse relato de parto tem um sabor todo especial, pois envolve parte da minha família, que é minha base, meu sustento!!

Desfrute!!

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Meu nome é Taina, tenho 28 anos, natural de São José dos Campos, sou casada com o Sérgio Lessa e tenho um casal, Rafael de 5 anos e Kézia de 2 meses.


**Rafael**

Há 5 anos atrás, em setembro de 2012, eu conheci esse amor incondicional: ser mãe. Cada vez que meu bebê se desenvolvia e eu ouvia seu coraçãozinho batendo, meu amor só aumentava.

Rafael se ajeitando, nas primeiras contrações <3. Foto: Arquivo pessoal de Taina Lessa

Bom, como toda mãe que quer o melhor para seu filho, fui conhecendo mais sobre o parto normal (no qual sempre desejei), então soube através da minha cunhada e doula Arlene (<3) os benefícios que era para o bebê e também para a mamãe, não pensei duas vezes, fiquei ainda mais decidida em optar pelo parto normal ou natural.



Continue lendo esse relato de parto no blog A Casa da Doula.





quinta-feira, 15 de março de 2018

RELATO DE PARTO --- CESAREA-INTRAPARTO - Por Talita Moura

Este é o relato de parto da Talita Moura!
Uma mulher linda, doce e ao mesmo tempo de uma fortaleza surpreendente!

Uma busca por um parto respeitoso que rendeu uma transformação incrível!

Aprecie sem moderação!!!

Talita, gratidão por compartilhar com a gente sua história!!

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Artur acabou de completar 40 dias e de presente recebi esse registro incrivel feito por Juliana Rosa ! Sem palavras.
Artur é nosso segundo bebê arco-íris; nosso primeiro é João Pedro que nasceu de uma cesarea eletiva.

Artur veio de surpresa, num momento não muito fácil, inclusive financeiramente.
Apenas marido trabalhando, João com apenas 1 aninho, e sem plano de saúde... Entramos numa realidade de muitas famílias e iniciamos pre-natal pelo SUS. 
Eu sendo gestante de alto risco, com trombofilia, sempre fui muito bem tratada e não me faltou medicamento ( anticoagulante ) Graças a DEUS não tenho do que me queixar.
Mas nada era tão preocupante quanto nascimento.
Sem condições de arcar com uma equipe completa, eu sabia o que queria! QUERO PARIR ARTUR.


E encontramos mulheres iluminadas para trilharmos esse caminho.
Arlene Ferreira Azevedo, amiga e doula pra vida inteira, ja estava "por perto" desde a primeira gravidez, e efetivamente entrou em nossas vidas com gravidez do Artur. Me auxiliou desde o primeiro contato, conversas infinitas, parceria incrivel. Prontamente me orientou em diversos aspectos, um deles imprescindível foi " você precisa de uma Enfermeira obstetra". E então chegamos a Kátia Zeny Assumpção Pedroso .
QUE TIME !

Ambas me fortaleceram, me apoiaram e fundamentalmente me empoderaram de informação..


Continue lendo esse lindo relato de parto no Blog "A Casa da Doula"

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[...]Foi uma realização! Sou grata

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Fotos: Prosa e Fotografia - Juliana Rosa - Arquivo pessoal de Talita; postagem autorizada

Quer uma doula no seu parto?

Me chama :)

arlene.felizparto@yahoo.com.br

quarta-feira, 14 de março de 2018

Relato de parto - por Cibele Barbosa

Oooii povo lindo!!
Depois de dois anos da minha última postagem (meu próprio relato de parto), estou voltando a mexer, ainda sem uma frequência determinada, neste blog amado!
Vou iniciar essa volta fazendo várias postagens autorizadas, dos relatos dos partos e trabalhos de parto que eu acompanhei.
Espero que vocês gostem!!
*E um agradecimento mais que especial para as mulheres que me fizeram esse grande favor, de escreverem seus relatos e me mandarem!! Gratidão eterna!

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RELATO DE PARTO DE CIBELE BARBORA E SEU BEBÊ DAVI (2014)
Minha segunda gestação, sendo a primeira uma cesariana devido ao famoso “conto do vigário” do cordão no pescoço, eu sem instrução caí nesta, e na segunda oportunidade um pouco mais instruída decidi pelo Parto Natural. Sofro de disfunção hormonal o que me levou à uma cirurgia pra retirada de um cisto ovariano, na qual perdi uma de minhas trompas. Os médicos me disseram que eu teria dificuldades pra engravidar e aconteceu duas vezes; os médicos me disseram que eu não conseguiria ter um parto normal, mas eu quis provar que também poderia.
Como já havia passado da 40°semana tinha ido ao hospital para o exame de cardiotocografia, depois de examinada e submetida à uma amnioscopia, estava aguardando pra retornar com a plantonista para ver os resultados dos exames, eis que senti uma dor diferente...

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Quer uma doula no seu parto?
Me chama :)
arlene.felizparto@yahoo.com.br

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Meu relato de parto - 2

Eu tinha começado a escrever, no dia 25 de fevereiro, meu pré diário de parto. Minha intenção era recordar tudo que passei durante a gestação, para relembrar depois do parto...
O negócio é que minha pequena resolveu nascer  no dia seguinte, conforme vou relatar logo abaixo. Portanto, meu diário de pré parto, virou agora, meu pós diário de parto rsrs! Vou continua-lo mais pra frente, no mesmo post.

Meu relato de parto!

Desde o parto da minha primeira filha, tinha colocado no meu coração que meu ideal para meu próximo parto seria um parto domiciliar (meu primeiro relato de parto, você lê aqui!!). Ralei mais da metade da gestação para conseguir uma equipe que eu, mais que confiar, amasse de coração. E a equipe escolhida foi a equipe de Obstetrizes do Vale - Ópis - formada por obstetrizes formadas pela USP (meu amado curso que volto assim que puder) e 2 sage fames. Ter no meu parto colegas de curso foi muito mais que um privilégio; teve um significado totalmente único pra mim!

Facebook: https://www.facebook.com/Obstetrizesdovale/

Você pode acompanhar um pouco da minha luta pelo PD nesse POST.

Mas, vamos ao relato.

Minha DPP, pela DUM, era 08/03. Mas eu sempre disse para meu marido e uma ou duas pessoas mais próximas que sentia que minha filha adiantaria um pouco. Não prematuramente, mas não chegaria ao mês de março.

Completei 38 semanas no dia 23 de fevereiro. Eu continuava atendendo minhas clientes de estética facial normalmente. Já sentia bastante cansaço e muito peso nas pernas. As varizes doíam muito. Já tinha diminuído meu número de atendimentos, mas o calor judiava demais do meu organismo.
Eu sentia as contrações de treinamento - Braxton Hicks - há pelo menos uns 10 dias. As vezes duravam a manhã inteira, paravam a tarde; as vezes, a tarde ou a noite toda. Não doíam, mas eram regulares. Porém, sumiam num piscar de olhos. Eu que já sou uma pessoa sossegada em relação às BH, quando apareciam, quando passaram de 4 dias seguidos, desencanei...

Eu esperava o resultado de exame de Strepto com muita ansiedade (embora eu saiba que essa bactéria pode estar ativa ou inativa em questão de pouquíssimos dias antes do parto). O resultado sairia dia 25.

No dia 25, quinta feira, como sempre, acordei com as contrações de treino (do meu ponto de vista). A barriga endurecia, sem dor alguma... eu só não tive o cuidado de anotar os intervalos entre elas. Eram regulares, como sempre não doíam nada. Me faziam sentir um pouco de falta de ar, mas nada que me alertasse. Mas nesse dia, eu senti um desejo de fotografar minha barriga como ela estava ali, naquele momento (eu tinha ganho um ensaio gestante de um ex-colega de escola e nunca saiu o tal ensaio). Eu me sentia diferente; sentia que podia ser a última foto do jeito que eu queria tirar. E fiz algumas fotos. Gostei especialmente de duas. E o tempo todo me lembrava do refrão da música ANUNCIAÇÃO, do Alceu Valença: "Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus sinais!". Eu sentia que ela estava chegando, porque eu percebia os sinais que ela e meu corpo me davam.

38 semanas e 2 dias em 25 de fevereiro


Fui para meu local de atendimento após a aula da minha filha, atendi uma cliente, bati papo com meus pais e pedi que meu pai me trouxesse pra casa. Chegando, liguei o computador e fui acessar o site do laboratório onde fiz meu exame. Dois grandes NEGATIVOS surgiram na tela. Eu não tinha a temida bactéria! Podia parir minha filha em casa, conforme eu quisera há tanto tempo (meu medo dela se deve ao fato de minha primeira filha ter sido internada com 5 dias de vida, por conta de uma infecção, descoberta mais tarde ser hospitalar, que consideraram ser a bactéria que EU teria passado pra ela; ou seja, carreguei uma culpa q não era minha por aproximadamente 6 anos).

Continuava a sentir as contrações e continuavam sem dor alguma. Fui ajeitar a cozinha, higienizei frutas e legumes, subi e desci escadas, recebi visita de duas amigas e conversamos até quase 23h. Tudo na santa paz...

Fui tomar banho, meu marido veio junto... acho q sentíamos que nossa segunda filhota chegaria logo. Ficamos de namorico até tarde, conversamos, rimos bastante e dormi feito uma pedra a noite toda. Me lembro de ter acordado no meio da noite com uma contração dolorida nas costas... mas dormi logo em seguida. Pensei ali "Que sono... se consigo dormir, é pq ta no começo ainda. Vou dormir até as contrações me acordarem pra não dormir mais!". Eu tava com tanto sono que nem pensei em olhar no relógio. Pela escuridão e silêncio que estava, acredito ter sido entre 2h e 3h30 da madrugada.
As 5h05 fui acordada por uma contração que, de fato, não me deixou dormir mais. As costas, a lombar e a barriga doíam bastante. Levantei, fui no banheiro, a dor continuava. Me lembrei do parto da minha primeira filha, cujas contrações começaram as 4h30 da manhã. Pensei: "Vai ser hoje... mas certamente, será a noite, conforme foi o primeiro parto...", eu sentia contrações fortes, mas completamente irregulares - eu já tinha um app contador de contrações. Elas duravam a média de 1m30s a 2m, mas o intervalo entre elas variava de 3m atá 8m, completamente fora de ritmo. Andei pelo apartamento. A cada contração, que vinham realmente bem fortes, eu agachava, respirava fundo... parecia q eu tinha "duas mentes" na mesma cabeça... e uma brigava com a outra:

Mente1: Estão fortes... melhor avisar as meninas da equipe. Se continuar agachando / pendurando assim, vc vai acelerar o expulsivo. Elas não vão chegar a tempo.
Mente2: DÓOOOIII, AI COMO DÓOOOOIII!! Não é possível que seja TP ativo... começou agora! MAS PQ DÓOOII DESSE JEITO? Vou avisar... não, não vou ainda, está cedo...

Voltei pro quarto. Eram qse 6h da manhã. Era sexta feira, dia 26. Ainda dia de aula da minha filha mais velha. Avisei meu marido q estava com contrações fortes. Me deitei; levantei imediatamente de novo. Não conseguia ficar deitada. "Você arruma ela pra escola, vou fazer o café!". Acho que foi isso que falei. Fui pra cozinha, coloquei água pra ferver. Entre iniciar o dia preparando o café, agachava, rebolava, me pendurava no balcão; respirava fundo. Acho que nessa hora fiz o primeiro aviso no grupo do whatsapp que estava com contrações realmente doloridas. Me orientaram a ir pro chuveiro. Fui. Fiquei uns 35 minutos. Não aguentava mais água. Saí. Avisei no grupo que as contrações não tinham parado. "Você ficou pelo menos 50 minutos?", "Não", respondi. "Então volta e fica lá pelo menos esse tempo". Avisei minha cunhada e pedi q ela viesse. Tentei tomar café, não conseguia comer. As contrações doloridas demais, me faziam não sentir vontade de comer. Sentei na mesa, em cima da bola pra tomar café com minha filha. Mas não virou. Ela queria conversar, eu não conseguia. Ela, na sua inocência de criança de 6 anos me falou: "Mamãe, por que você não quer falar comigo hoje?". Tadinha, não era o que eu queria que ela achasse. Abri um sorriso dolorido e falei baixinho: "Meu amor, me desculpe. É que talvez sua irmãzinha queira nascer hoje, ou amanhã. Aí eu fico com muita dor nas costas. É só por isso que a mamãe não está conseguindo conversar, estou com muita dor. Mas não se preocupe, isso vai passar, tá? Eu só quero ficar em silêncio um pouquinho só, tudo bem?".
Ela me deu um sorrisinho tímido, que é só dela. Me abraçou em volta do pescoço e me deu um beijo bem demorado. Aquilo foi um anestésico imediato. Eu sentia muita dor ainda, mas não me incomodavam de modo negativo. Eu acho que só precisava de um carinho, um abraço quente aquela hora. Eu sentia que ela também sabia da chegada da irmãzinha. Eram por volta das 7h da manhã.
Com a tentativa frustrada de tomar café, voltei pro chuveiro e lá fiquei. Meu marido foi levar nossa filha na escola. Antes dela sair, ela entrou no banheiro. Percebi o olhar preocupado dela. E repeti que estava tudo bem, que era apenas uma dorzinha nas costas e na barriga e que talvez a irmãzinha quisesse nascer. Ela deu o mesmo sorriso, me beijou e foi pra escola. Era dia do brinquedo e fiz questão de perguntar que brinquedo ela levava. Estava levando uma pelúcia da My Little Pony rsrs.

Fiquei no chuveiro... mas não aguentava mais água. Não fiquei os 50 minutos... fiquei uns 40. Meu marido voltou. Era pra ele ter ido trabalhar, mas pedi q ele ficasse. As contrações espaçaram, não ritimaram, mas continuavam vigorosas. Minha mente se dividia entre "isso tá indo rápido demais, tá muito estranho isso" e "puts, será que eu aguento isso até a noite?". Não conseguia mais escrever; pedi q meu marido avisasse no grupo que as contrações espaçaram, mas estavam fortes. Coloquei um TOP, estava extremamente calor (era no máximo 8h da manhã e o calorzão de fevereiro se fazia marcar). Eu continuava andando pelo apartamento e meu nervo ciático judiava da minha perna. Pedi q meu marido pressionasse apenas o nervo. Aliviava 90%. No grupo do parto, avisaram que uma das obstetrizes da equipe estava a caminho pra me avaliar. Dei graças a Deus! Meu marido avisou e resolvi deitar. Estava sentindo muita dor e sono, ao mesmo tempo.
Por volta das 8h30 ou 8h40, a obstetriz chegou. Nessa hora, eu só conseguia ficar sentada no vaso sanitário. Sentia uma dor gigantesca no osso sacro e na sínfese púbica. Não conseguia apoiar nada, sentando em lugar nenhum. Por isso o vaso me aliviava muito. Me lembro que ela chegou, me viu daquele jeito e depois de me cumprimentar, falou: "É... você ta em trabalho de parto mesmo!" rsrs. Não sei a cara que eu estava, mas eu imagino que tava com a cara mais nóia que o pessoal do Woodstock. Ela auscultou os batimentos cardíacos da bebê (estavam 160, eu acho), avisou que se trocaria e já me avaliaria. Imediatamente fui pro quarto e deitei novamente. Eram 9h da manhã. Logo ela veio e me avaliou: 5 cm. A P.A estava em ordem: 11/8

Foto: Taina Lessa (arquivo pessoal)


Ao mesmo tempo, as duas "mentes" que eu tinha na cabeça se manifestaram. Ao mesmo tempo que fiquei mega aliviada (puxa, que ótimo! Estou mesmo em TP. Minha filha vai mesmo nascer! E vai nascer em casa!!), entrei em pânico por dentro (5 cm? Meu Deus, ainda tem metade pra dilatar e mais o expulsivo. Ai caramba, será que eu aguento? Já está a mil esse TP...).
Fiquei na cama por mais algum tempinho e, sequer notei a chegada da minha cunhada. Ela chegou em silencio e fez algumas fotos. Eu apenas ouvia o som da câmera. E continuava deitada. Pedi pro meu marido avisar no grupo que, quem quisesse, podia já vir pro apartamento. Nessa hora, mesmo que demorasse, eu não queria mais ficar um momento sequer sozinha. Queria todas perto de mim.
Em dado momento, eu não aguentava mais as contrações. Sentia muita dor nas costas. Eu vocalizava e me levantava quando sentia que vinha a contração. O tempo todo minha cabeça pensante ficava: "Meu Deus, os vizinhos vão achar que eu to com problemas aqui. Não posso gritar, não posso me exaltar, vou horrorizar o pessoal..."; ao mesmo tempo que minha cabeça ocitocinada ficava: "Ahhh, dane-se!! Tá doendo! Eu vou gritáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar!! ahhhhh que dor! Que saco!".

Nessa hora eu olhei em volta e vi a bola de pilates que tenho em casa. Imediatamente pensei: "Bola, é isso! Vou pra ela rápido antes que venha outra contração". Eu não sei de qto em qto tempo estava a contração. Pra mim, parecia que o intervalo estava menos de 2 minutos e que durava apenas alguns segundos, mas segundos imensos (se é que isso existe). Pedi uma toalha em cima da bola, peguei os travesseiros que estavam na cama e me apoiei neles. Vinha uma contração, eu gritava com uma toalha na boca, pois a mesma cabeça pensante dizia q eu não podia incomodar a vizinhança. Duas contrações depois eu nem lembrava mais da toalha... gritava sem nada mesmo!
Eu chamei a obstetriz e, por dentro, não me conformava que eu tinha escolhido aquilo. Vinha a contração e eu só gritava "SOCOOOOORROOOO!"; eu dizia que dóia muito e a obstetriz, linda, sempre me incentivava. Dizia q sabia q doía; eu dizia q não ia aguentar e ela dizia q eu aguentava sim, que confiava em mim e que eu já tinha passado por aquilo uma vez e conseguiria novamente! Vinha outra contração e eu gritava, chorava. Por dentro eu pensava "PQP! PQ Q EU FUI ESCOLHER UM PD? C*****, QUEM ESCOLHE ISSO SÓ PODE ESTAR QUERENDO ZUAR COM A CARA DA MULHERADA, QUE ÓDIO!". Nem sei que cabeça pensava isso. Só sei que a que usava da razão nessa hora só pode ter sido esganada pela da partolândia, não vejo outra alternativa pra ela ter ficado em silêncio. A vizinha do apto de cima interfonou pro nosso apto e ofereceu ajuda (ela não sabia que eu tinha escolhido um PD). Meu marido atendeu e falou que estava tudo bem, que tinha uma equipe me acompanhando (soube dps pela vizinha do apto de baixo q ela chegou a ligar pra esse apto de baixo e disse q achava q eu 'tava tendo nenem e se ela sabia se eu tava sozinha ou não, se era melhor ligar pro resgate. Ainda bem q ela ligou aqui antes pra perguntar, senão ia ter o SAMU entrando e invadindo meu apto durante o parto rsrs).

Eu apertava a mão da obstetriz e ela não me soltava. Assim que a contração passava, eu deitava nos travesseiros. A contração vinha, eu gritava, chorava, xingava e apertava a obstetriz. Minha cunhada apertava minhas costas e minha perna, no nervo ciático. Eu soube depois que, nessa hora, meu marido tinha saído do apto pra ir atras de um transformador para o aquecedor (pena...).

Do nada, uma contração que iniciou dolorida, parou de doer e me deu uma vontade imeeeeeeensa de fazer força. A sensação era que eu estava com um (desculpe o palavreado) "cocô imenso" preso no intestino. Minha cabeça racional decidiu ressuscitar nessa hora e pensava: "Não force, deixe o útero empurrar; se sentir vontade e não der pra controlar, faça força devagar, senão vai lacerar". Minha cabeça louca pensava: "VAI SE F****!! SAI LOGO DAÍ, SACO!".

Eu arfava, forçava e minhas duas mentes brigando dentro da minha cabeça. Meu coração só conseguia sentir satisfação e medo ao mesmo tempo. Satisfação pelo parto e pq minha filha estaria logo comigo e medo pela laceração que eu sabia e tinha certeza que aconteceria e medo de saber se tudo estava bem com ela. Eu não tinha me dado conta mas, fora a obstetriz, ninguém mais da equipe estava lá. Mas eu sequer tinha me dado conta disso. Uma das minhas mentes se lembrou por frações de segundo de perguntar pelo meu marido, mas foi sufocada por outra contração. Eu só sei que, vinha a contração, eu forçava. Minhas duas cabeças continuavam os "mantras" opostos: "Não force, cuidado, vai lacerar... respira sem forçar!" e a outra: "AAAAAAAAAAHHHHHHHH, C*******, NASCE LOGO E AÍ A GENTE VÊ O QUE FAZ COM A LACERAÇÃO, SACO!!". Eu gritava, chorava, xingava e urrava. Isso aconteceu umas 5, 6 ou 7 vezes, não tenho nem ideia. Só sei que em algum momento, eu não conseguia deitar de frente, doía muito debaixo da barriga. Arqueei o corpo pra trás.  Nesse momento a obstetriz só me falou: "Ela está aí!".

Minha cabeça deu uma parada no tempo só pra pensar... a cabeça pensante duvidou: "Isso é impossível! Eu estava com 5cm há pouco tempo... como assim ela já está aqui?"; a cabeça louca não pensou nada... sequer deu palpite. Nessa hora a obstetriz perguntou: "Você quer sentir a cabecinha dela?"

Meu Deus... eu meio que imaginei eu ouvindo essa pergunta desde um dos primeiros relatos de parto que li, onde uma EO perguntava a mesma coisa pra mulher. Mas eu jamais imaginei que alguém faria essa pergunta pra mim, pq jamais imaginaria conseguir um PD (por N motivos)... mas ela o fez!! Meu coração saltou de emoção e me toquei... mas... cadê? Perguntei, além do mentalmente, perguntei em alta voz tb. Ela olhou de novo e falou: "Ela tava aí agora mesmo, eu vi, tenho certeza..." e nisso, veio uma outra contração. Era o que deveria ter acontecido, a "ida e volta" para massagear o períneo. Ela apareceu de novo e me toquei. A obstetriz me falou que eu sentiria a bolsa íntegra. O líquido estava clarinho (meu coração saltou de alegria de novo) e eu já estava no expulsivo. Aí a cabeça pensante duvidou de novo: "Expulsivo? Como assim? E não tem ninguém aqui? Como assim? Pq só tem uma obstetriz aqui? Por que não deu tempo? O que aconteceu? Ai meu Deus, lá vem mais uma..." e outra contração começou. A obstetriz tinha ido pro outro quarto ligar pra a colega (outra obstetriz) e avisar que eu estava no expulsivo. Ela estava no portão, mas não tinha ninguém pra abrir o portão pra ela. Gritei por ela e ela voltou. Ela perguntou se eu queria deitar na cama. Eu não conseguia falar, só empurrar. Minhas duas mentes continuavam brigando na minha cabeça, uma pra empurrar e outra pra não empurrar, pra evitar a laceração. Eu levantei da bola e segurei meu períneo. Nessa hora, senti a cabeça dela começando a sair e junto, a bolsa estourou. A sensação da água quente, saída de dentro de mim e passando pela minha mão é indescritível. Senti junto o topo da cabeça dela quente do mesmo jeito e o vérnix viscoso no cabelo dela. Meu coração acelerou! Meu Deus, ela estava ali, há poucos momentos de mim!! Nessa hora minha cabeça pensante pensou mais forte: "Meu Deus, tão rápido assim foi esse expulsivo... puts, vai lacerar e vai lacerar feio... o que eu faço agora? Não quero que lacere, isso vai demorar pra sarar, e agora?". Minha cabeça pensante preocupada com isso e minha outra mente na maior viagem alucinógena e psicodélica que eu jamais imaginei passar, só pensava: "Que loco isso, ela tá aqui... olha que quente, olha que demais, que vibe!! Tem dois momentos aqui, um dentro, um fora!! PQP, Q LOCO, Q BARATO!!".

Ao que a obstetriz repetiu a pergunta, se eu queria deitar na cama, veio outra contração. Tentei me levantar pra, pelo menos, sentar na cama, não consegui. Ao que levantei, ajoelhei no chão com o joelho esquerdo e levantei o joelho direito. Minha mão esquerda foi pra trás e minha mão direita pela frente, imediatamente tocaram a cabecinha dela, que já escorregava pra fora de mim inteirinha. Ouvi o som de quando cai água no chão.  Não sei se eu a segurei sozinha, se a obstetriz me ajudou... não vi nada, só senti. Eu senti o corpinho dela escorregar inteirinho pras minhas mãos, lisa, quente e chorou, assim que a peguei. Como era quente, como era lisa!! E eu a trouxe pro meu colo... a abracei!! Era minha, toda minha, minha pequena Giovana!! Que quentura deliciosa e eu podia senti-la com meu corpo. Eu estava ainda na mesma posição e a abraçava, lisa e quente!! "Minha, é minha, só minha!" uma das minhas mentes pensava! Eu me sentia extasiada, como se tivesse tido o maior prazer da minha vida!! Como era delicioso aquele momento... e eu queria que durasse para sempre!!

Foram poucos segundos (acredito eu), que fiquei assim... mas foram os mais incríveis que ali fiquei!! Não sei como, mas me deitei... não sei quando tb, mas sei que ali, naquele momento, entraram meu marido, a Ana (a outra obstetriz) e minha cunhada (que tinha ido tentar abrir o portão pra Ana). Me ajudaram a me deitar. Tiraram meu top e nos colocaram em contato pele a pele. Ela era rosinha, linda, fofinha e muito quentinha. Puseram muitas toalhas passadas e quentes sobre a gente. Ela foi sendo mantida aquecida... e que cheirinho delicioso, cheiro de alguma coisa que eu não sei descrever, mas é algo que eu jamais vou esquecer! Eu a sentia, ela estava bem, se mexia, estava no meu colo, onde ninguém e nada poderiam fazer mal a ela. Ninguém ia espeta-la, esfrega-la ou leva-la pra longe de mim. Ninguém ia toca-la com bactérias modificadas de um hospital, só com as da minha família mesmo! Ninguém ia tirar de mim de dar a ela a melhor recepção que um novo ser humano merece! E essa equipe linda, maravilhosa, perfeita, de obstetrizes mais que humanas, nos concedeu isso!


Assim que nasceu - foto de celular (arquivo pessoal)


Meu marido veio perto da gente... me beijou, ficou perto, me acolheu! Estava orgulhoso da gente, eu sentia e tão feliz qto eu. Em meio a tudo isso, ouvi a obstetriz falando: "Hora do nascimento: 10h43."


Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


COMO É QUE É??
Não pude acreditar, novamente... menos de duas horas depois do único toque feito, onde eu estava ainda com 5cm, minha filha estava no meu colo. Foi um parto mega ultra rápido, cuspido, quiabo, a jato ou qqr outro adjetivo que você queira dar. Justamente por isso, assim que escutei o horário, a primeira coisa que pensei: "Puts, meu períneo foi pro beleléu!"

Ainda fiquei um tempo com minha bebéia no colo... e nisso chegaram a doula e a fotógrafa, que não acreditaram que minha pequena já estava no meu colo. A cara de espanto das duas tb não vai sair da minha mente rsrs!
A placenta nasceu logo depois. E minha filha ainda estava conectada ao cordão, que já tinha parado de pulsar. Pedi pra sentir o cordão... era firme, mas já estava frio, branquinho. Meu marido clampeou o cordão e a obstetriz o cortou. Pronto! Não estávamos mais fisicamente ligadas. Pedi para ver a placenta... e me surpreendi muito! Era menor que a placenta da minha primeira filha, mas tão vermelha quanto! Agradeci mentalmente por ter cuidado da minha pequena, enquanto eu mesma não podia cuida-la diretamente.

Foto: Taina Lessa (arquivo pessoal)


As obstetrizes pediram pra alguém ficar com minha filha para avaliarem meu períneo. Entreguei pra Lidiane, a doula, e ambas foram então, avaliar os estragos. Laceração de segundo grau, de gravidade média. A velocidade do nascimento causou um estrago considerável, mas ainda sim, do meu ponto de vista, menos desastroso do que uma episiotomia.
Pesaram e mediram minha filhota: 48,5cm e 2,850kg. Ela voltou pro meu colo, mamou um pouco e novamente, foi pro colo das meninas, para que as obstetrizes iniciassem os cuidados e suturas necessárias. Tomei anestesia local e foi feita a sutura. Passado o procedimento, Ana me ajudou a tomar banho. Meu marido e minha cunhada cuidaram da limpeza e do almoço. Minha irmã se prontificou a pegar minha filha mais velha na escola. Todos cuidaram uns dos outros e fiquei tranquila. Voltei p cama e fiquei com minha filha. Almocei e curti muito a companhia de todos.


Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Aos poucos, cada uma foi se despedindo e indo pra casa. Um pouco depois, minha família veio conhecer a nova integrante. Minha filha entrou primeiro no quarto... e jamais, nem mesmo quando eu ficar velhinha, vou esquecer o rosto de surpresa dela, ao nos encontrar no quarto... pois ao sair pra escola, a irmãzinha ainda estava na barriga da mamãe; quando voltou, estava no braço!

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia
Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Eu jamais vou poder retribuir o que essa equipe fez por mim!! Nem em mil anos, poderia fazer o bem q me fizeram!! Talvez, gratidão eterna seja o mínimo do mínimo que eu poderia oferecer a elas!

Quero agradecer primeiramente a Deus que, durante toda a gestação, ouviu meus medos, viu minhas (não poucas) lágrimas, de cada luta não vencida e das vencidas; das dificuldades e das vitórias, alcançadas até mesmo poucas horas antes do parto.

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço ao meu marido, Sigmar e minha filha Verônica Maria, pelo carinho, apoio e principalmente, por embarcarem comigo nessa aventura. Eu não sou nada sem vocês!!

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço imensamente e eternamente, ao coletivo Ópis - obstetrizes do Vale, por estarem comigo, por serem minhas companheiras nesse momento tão único, por terem topado comigo, mesmo com as inúmeras limitações, embarcar nessa "loucura". Vocês são parte da minha história e da minha família, para sempre.

 Ópis - obstetrizes do Vale


Gratidão imensa à doula Lidiane, que saiu de Taubaté, correu pra deixar seu pequeno filho em outra cidade e veio pra Jacareí e foi uma doula presente a todo tempo, mesmo não dando tempo do parto em si. Esteve comigo de forma plena, divertida e carinhosa.
Contato: https://www.facebook.com/lidianearf

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço apaixonadamente a fotógrafa Juliana Rosa, pelo registro próprio do pós parto e pelas edições nas fotos da minha cunhada. Graças ao seu trabalho lindo, delicado, sensível e de inquestionável talento, terei para sempre o registro de um momento incrível da minha vida! Gratidão!
Contato: https://www.facebook.com/prosaefotografia/?fref=ts


Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Agradeço a minha cunhada Taina, que em seu silêncio mariano, se fez presente com seu apoio e dedicação, cuidando de mim no parto e depois, do meu espacinho rsrs! Deus te recompense infinitamente.

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

E por fim, meus pais que me ensinaram a ser do jeito que sou, teimosa, que não engole sapo e busca o que quer, mesmo que custe alguns chingos, lágrimas, feridas e muito cansaço, mas que mesmo assim, eu alcance o meu sonho! Obrigada Mãe Carminha e Pai Daniel! AMO VOCÊS!! Graças ao que me ensinaram a ser, tive força pra lutar por um nascimento digno para minha filha. E as minhas irmãs que são minhas companheiras pra toda hora! Graças ao que vcs são pra mim, que resolvi presentear a Verônica com o presente mais lindo, legal e amoroso que tem nesse mundo: uma irmãzinha <3 - AMO VCS!!

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia

Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


Á minha pequena Giovana Paula, futuramente, ao ler esse relato, saiba que, mesmo que a gente tenha passado por muita coisa na gestação, principalmente de ordem financeira (sempre no vermelho), saiba que lutei muito, muito, muito, para que você fosse bem recebida no meio da nossa família. Fiz o mesmo pela sua irmã e não seria diferente pra você! Vocês são a luz dos meus olhos e faria tudo de novo! Ainda há muito que melhorar, mas tudo que eu pude fazer, eu fiz! Saiba que meu amor permanecerá em cada gesto que eu fizer, sem diminuir jamais!

Amo vocês!!

Com amor,

Arlene
Mãe, esposa, doula, futura obstetriz e apaixonada pela vida!

#avidaéforte
Foto de Juliana Rosa * Prosa e Fotografia


*Espero que tenham gostado!

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Memórias de um ex-cesarista

Encontrei esse texto no blog Espaço Bem Nascido, um blog ótimo, que procuro ler todos os dias, pois fica sempre cheio de novidades... amei e resolvi compartilhar com vocês. Vejam só como a experiência de acompanhar um parto natural, mudou a visão de um médico que era bem cesarista:

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Antes eu era um obstetra normal. Era chamado para as festas corporativas de final de ano, dormia a noite inteira e raramente recebia ligações de gestantes nos feriados. E se acontecesse, eu ligava para um colega de plantão e ele operava pra mim.

Tinha uma vida social e ia a todos os compromissos pré-agendados, inclusive minhas cesáreas. Tudo pontualmente.

Foi quando conheci a Clara, uma enfermeira recém formada em obstetrícia, contratada para humanizar o parto numa das maternidades em que eu operava. Essas “pressões do governo para reduzir cesárea, sabe como é. Pensei que fosse só pra constar. Afinal, eu já tinha uma postura muito humanizada, oras. Entre a extração do bebê e a seção de tubos nasais da pediatra, eu mostrava a criança rapidamente para a mãe, que ficava emocionada. Mas a pediatra precisava fazer o trabalho dela e isso era o prioritário naquele momento. A mãe teria o resto da vida para curtir. Uma noite sem ele, não mudaria nada.

Enfim, esta Enfermeira começou a conversar com as gestantes que chegavam antes de eu chegar, até que um dia, as peguei numa posição constrangedora: ela e a “mãezinha” de cócoras! Até então só tinha visto tamanha acrobacia em filmes eróticos muitos selecionados. Peguei a doente e operei antes que acontecesse algo pior.

Um dia quando fui ao hospital após a ligação de uma paciente “pós-termo” (40 semanas) e, enquanto me paramentava, escutei um gemido suave e um choro de bebê. Corremos para salvá-los, mas já era tarde. O feto nasceu de um parto completamente “contaminado”. E por sorte, ficaram bem, e tiveram alta após uma semana de nosso ritual de descontaminação. Fizemos o que pudemos: antibióticos, desinfecção, . Nunca cheirei tanto éter na vida.

Por pouco não cai no chão. Nas mãos de uma enfermeira que dizia “Acostume-se, ‘doutor’, no futuro os partos serão assim...” O que ela sabia sobre futuro com estas práticas retrogradas? Foi muito traumatizante pra mim, mas pelo menos, ambos sobreviveram.

O que mais me preocupava era: como aquela criança conseguiu nascer – e bem – sem um médico por perto. Isso ia contra tudo o que eu havia aprendido e acreditado.

A gota d´água para eu deixar aquela maternidade foi no dia em que essa irresponsável acendeu um incenso e colocou o CD da Enya... ‘Pra relaxar’, dizia ela.

Pois eu pedi contas imediatamente! Dois meses depois já tinham reduzido a taxa de cesárea de 95 para 75%. Era demais para mim e eu não poderia compactuar com os riscos a que estavam submetendo mãe e feto naqueles partos sem controle.

Parecia até que o parto era das mulheres, não um ato médico!

Neste novo emprego, contei para o diretor-médico todas as coisas que fui obrigado a assistir e acabei me abrindo demais ao contar que estava fazendo análise por causa desses traumas. Numa dessas seções, até chorei.

Mas este colega compartilhou de minha dor e foi solidário ao garantir que isso só se repetiria por cima do cadáver dele. Mas aí ele morreu no mês seguinte e o substituto colocou como principal meta diminuir as cesáreas, meu Karma. Eu estava quieto na minha... Mas quando vi meus próprios colegas de plantão oferecendo água pra parturiente em pleno trabalho de parto, não pude me conter! O que mais faltava acontecer? Abolir a episiotomia de rotina? Foi o que aconteceu...

Decidi que trabalharia numa maternidade particular, onde jamais seria importunado.

Novamente comecei muito bem até que auxiliei na cesárea de um colega mais cesarista que eu. Ele conversava sobre a festança de reveillon que tinha promovido e que passaria o carnaval na Bahia, por isso estava “desafogando” sua agenda. Parei para olhar aquela cena... Percebi que o assunto ignorava completamente o belo momento que estava acontecendo e que ele estava operando várias grávidas só pra poder viajar no feriado. Percebi que eu já havia feito aquelas coisas, mas ver outra pessoa fazendo igual me despertou algo estranho... Como uma lamentação.

Com o papo, ele acabou esquecendo de mostrar o bebê à mãe.

Numa sexta fera, outro colega me ligou agendando uma “cesárea de emergência” (por cordão enrolado...) para a terça seguinte. Por mais tapado que eu fosse, tinha outro entendimento sobre emergência...

Assim foi indo... Mas devagar essas situações começaram a me incomodar.

Tempos depois, uma gestante chegou ao meu consultório com 12 semanas já falando que teria um parto normal. Vê se pode... Nem estava na época de pensar nisso! Primeiro teria que dar tudo certo – tudo mesmo! – e durante o pré-natal certamente apareceria alguma intercorrência que me obrigaria a indicar a cesárea, era sempre assim.

Mas eu disse que tudo bem porque este era um uma situação distante e concordei que parto normal era melhor, desde que TUDO estivesse perfeito.

As semanas estavam se passando e e nada dela aparecer com sequer um exame alterado. E olha que o que eu mais pedia era exame! Pior é que eu era representante dos médicos no conselho do hospital e tinha uma reunião para reivindicação de um novo centro cirúrgico exatamente na mesma época prevista para este parto. Esta reunião me traria status na corporaçao. Mas seria muito azar ambos acontecerem exatamente no mesmo dia e na mesma hora! Então continuei procurando meus motivos minimamente coerentes para operá-la antes e me salvar do meu destino incerto...

O grande dia chegou. Ela entrou em trabalho de parto sem um sorinho sequer, pode acreditar. Cheguei logo depois tenso porque o “muito azar” aconteceu e estava quase na hora da tal reunião. Ela estava abraçada ao marido e, vai entender, tinha escurecido o quarto. Fiquei desconfortável, porque como eu faria meus procedimentos altamente tecnológicos sem luz? A hora da reunião se aproximava e os participantes muito ocupados, não me esperariam e os colegas me matariam se eu não aproveitasse a oportunidade. O novo Centro cirúrgico beneficiaria a todos que poderiam operar mais e atrair mais convênios para si e para o hospital.

E eu lá preso!

Já estava nervoso com a pressão alta - Nao da gestante, a minha! Saí, voltei, saí de novo e quando voltei peguei a parturiente numa posição que nem minha mulher fazia nos melhores dias: de quatro.

Custou, mas consegui o telefone daquela profética enfermeira obstetra. Ela me pediu pra ficar calmo e que o parto se faria sozinho, se eu deixasse a natureza agir. Que mane natureza! Quase xinguei, mas estava tão tenso que decidi relaxar. Já tinha perdido a reunião mesmo e o pior que poderia acontecer era o bebe nascer sem dar tempo de eu chegar a porta ao lado. Fui para o quarto dos médicos em alfa. Uns disseram que eu tinha que ficar lá, fazendo alguma coisa, que eu estava maluco... “Negligencia!”, nem liguei. Acho até que a paciente não me queria lá naquela hora. Coloquei a Enya no meu MP4 e cochilei. Acordei duas horas horas depois com a supervisora me chamando.

Quando cheguei no quarto dela, já não pude fazer mais nada, senão ver aquele bebê coroando e saindo de sua mãe. Sem fórceps, sem episio, sem nada. Na cama. Antes que eu pudesse chamar o pediatra, ela tomou o filho em seus braços e começou a niná-la entre lágrimas e devaneios. Eu precisava fazer alguma coisa, qualquer coisa, mas fiquei estático. Parecia que se eu me aproximasse, estragaria algo, sei lá. Por incrível que pareça, achei lindo e me deu um nó na garganta. Mas eu tinha que parecer profissional e não me emocionar.

Não havia laceração (nem sabia que era possível nascer sem episio), o sangramento foi moderado, mas logo cessou e eu mesmo pedi ao pediatra para não levar a criança para o berçário.

Mal podia dirigir de volta pra casa. Estava deliciosamente chocado.

Comecei a ver as coisas que estavam na minha frente o tempo todo e jamais pude ver. Me arrependi pelos tantos procedimentos que executei, sem criticar. Lamentei as oportunidade de crescimento que furtei as famílias em meu benefício. E o melhor de tudo: percebi que não precisava continuar sendo assim.

Fui pra casa, li o site da Parto do Princípio, HUMPAR, Amigas do parto, me perdi em tantos blogs, em especial o da Dydy (hehehe) e, confesso, me filiei à REHUNA.

Isso foi há dois anos.

No 1º ano, me tornei o médico que mais fazia partos normais na região e isto me levou a conhecer muitos colegas semelhantes. Fui convidado a dar palestras, meu consultório encheu. Minha mulher disse que eu estava menos presente, mas era muito mais feliz nos momentos em que estava com minha família.

No último ano fui convidado para trabalhar numa casa de parto e há seis meses uma cliente me convidou a assistir o Parto domiciliar dela.

Hoje tenho uma equipe: eu, a clara – aquela enfermeira-Enya – minha esposa que fez um curso de doula e um pediatra que converti á humanização, mas ele raramente precisa aparecer lá.

Minha vida agora não tem mais rigidez de horários, metas e patrões. As mulheres são as minhas patroas! Estou sempre a espera para aparar alguém que vai nascer e nada mais. Incrivelmente, a consciência de que eu não preciso fazer muita coisa num parto me trouxe uma imensurável satisfação.

Sei que não estou cometendo um erro, ao contrario do que nossa sociedade não preparada acredita. Estou seguindo meu código de ética, respeitando o desejo das mulheres que me procuram e as evidencias cientificas. Desta forma, o que poderia estar errado?

Entendi que o corpo feminino é perfeito e que o máximo que precisarei fazer é ajudar, de vez em quando.

Compreendo e pratico o sentido profundo da humanização, não mais o simplista superficial. E agora que o conheço, não resta mais alternativa, não há mais volta.



Obrigado pela atenção.



Assinado: Um ex-cesarista convicto e atual parteiro...
 
Este texto eu encontrei no blog da Dydy e gostaria muito que isso acontecesse com mais frequência com nossos médicos. (Paula)
 
Eu também Paula... ^^v - Um dia veremos isso, se Deus kiser!